Professor de Filosofia no Colégio Bom Jesus, o homenageado angolano é fundador do projeto social “Semear o Bem”. A proposta foi aprovada em 1° turno.
Próximo ao Dia do Professor, os vereadores da Câmara Municipal de Curitiba (CMC) aprovaram nesta terça-feira (13), em 1º turno, o projeto de Decreto Legislativo que concede o título de Cidadão Honorário de Curitiba ao professor Santareno Augusto Miranda. A proposta do vereador Fernando Klinger (PL) foi aprovada por unanimidade, com 21 votos favoráveis, e retornará ao plenário na quarta-feira (14) para votação definitiva.
Da tribuna da Câmara, na presença de Santareno e dos parlamentares, Fernando Klinger contou sobre a vida e a superação do homenageado e confessou que a ideia do projeto (115.00027.2025) nasceu por conta de seu filho, que foi aluno de Santareno. Além de lecionar filosofia no Colégio Bom Jesus, o educador é fundador do projeto social “Semear o Bem”.
Segundo o vereador, a trajetória do professor teve início em 1971, na aldeia de Maquimba, em Angola, onde ele ainda não compreendia plenamente o conflito que assolava o país. “O menino só tomou consciência da própria realidade aos 11 anos, quando se mudou para outra cidade para estudar. Já na juventude, foi recrutado à força para lutar na Guerra Civil Angolana e passou um ano em treinamento com instrutores cubanos e soviéticos antes de seguir para o combate”, relatou.
Klinger relatou que a participação de Santareno nos combates se estendeu por três anos, até 1990, quando o angolano pisou em uma mina terrestre e teve a perna direita comprometida. A partir dessa experiência, passou a se dedicar ao atendimento de refugiados e vítimas mutiladas pela guerra, promovendo a alfabetização de pessoas cujas trajetórias escolares e vidas haviam sido interrompidas pelo conflito, acrescentou o vereador. Santareno também reuniu integrantes de sua comunidade para prestar assistência e suprir necessidades básicas. Foi nesse contexto que surgiu a oportunidade de vir ao Brasil para estudar, aperfeiçoar sua formação e ampliar sua contribuição à população angolana.
“Ele poderia ter permitido que a guerra definisse seu futuro, poderia ter escolhido viver apenas com as marcas e lembranças daquele período. Mas escolheu outro caminho, escolheu ajudar. Seu compromisso com a educação e com a transformação da realidade daqueles que o cercavam tornou-se parte fundamental de sua trajetória”, elogiou Fernando Klinger.
Chegada e trajetória no Brasil
Santareno chegou ao Brasil em 1994 e fixou residência em Curitiba três anos depois, em 1997. Na capital paranaense, graduou-se em Teologia e Filosofia e, posteriormente, ampliou sua formação acadêmica com especializações, mestrado e doutorado. “Foi nesta cidade que construiu sua vida, sua família e sua trajetória profissional”, afirmou o parlamentar.
A trajetória do homenageado no Colégio Bom Jesus começou após a conclusão da faculdade, período em que se destacou pelo ensino de Filosofia e pelo envolvimento com questões sociais. Sua atuação chamou a atenção de outra professora, que o incentivou a desenvolver um projeto de voluntariado voltado aos alunos. Assim, em 2013, nasceu o “Semear o Bem”, com o objetivo de estimular estudantes do 1º e do 2º ano do Ensino Médio a realizar ações sociais. A iniciativa continuou mesmo durante a pandemia, quando foram doados 900 kg de mantimentos a instituições carentes.
A justificativa do projeto mostra que, até o momento, os estudantes já visitaram asilos, creches, centros de reabilitação para dependentes químicos, entidades de apoio a mulheres com câncer, abrigos de animais e comunidades em situação de vulnerabilidade. Nesses locais, realizaram atividades de escuta ativa, cuidado e recreação, além de promover a arrecadação e a entrega de alimentos e outros itens necessários às organizações atendidas.
A solidariedade que não atinge apenas a capital
A atuação do “Semear o Bem” não se restringiu a Curitiba. O projeto já enviou 19 mil livros para bibliotecas de escolas em Angola. Com o propósito de contribuir ainda mais com seu país de origem, Santareno planeja retornar à terra natal e estabelecer parcerias acadêmicas entre instituições de ensino superior brasileiras e angolanas para o desenvolvimento de pesquisas. Entre seus objetivos também estão a ampliação dos projetos sociais, a criação de escolas e a implantação do Farol do Saber em Angola.
“Essa homenagem não representa apenas o reconhecimento da Câmara Municipal, representa o reconhecimento de uma cidade que olha para a sua trajetória e diz: obrigado por escolher Curitiba”, concluiu o vereador. A vereadora Rafaela Lupion (PSD) manifestou seu apoio à proposta de lei e parabenizou Klinger pela iniciativa. “Curitiba agradece por tê-lo conosco, por contribuir com o desenvolvimento da nossa cidade. Parabéns pelo teu legado. Esse reconhecimento é o mínimo pelo bem que o senhor faz”.
